Editora: Record
Gênero: Romance policial
Páginas: 349
Chegou o café dos presos, disse Rosalvo, o senhor pediu pra avisar.
No xadrez, em duas celas com capacidade prevista pra oito presos, havia trinta homens. As celas de todas as delegacias da cidade estavam com excesso de presos aguardando vagas nos presídios, uns à disposição da justiça esperando julgamento, outros já condenados.
Mattos considerava aquela situação ilegal e imoral e tentara fazer um movimento grevista no Departamento Federal de Segurança Pública: os policiais parariam de trabalhar até que todos esses presos fossem transferidos para penitenciárias. O comissário não conseguira apoio dos colegas. As penitenciárias também estavam lotadas, e a greve proposta por Mattos não teria nenhuma consequência prática, causaria apenas uma repercussão negativa. Mattos afirmava que era esse o objectivo preliminar da greve, chamar a atenção da opinião pública e forçar as autoridades a procurar uma solução para o problema. Uma utopia desvairada, dissera o comissário
Pádua, você errou de profissão.
Os assessores jurídicos do DFSP haviam recebido ordens para encontrar uma maneira legal de exonerar Mattos, mas o máximo que conseguiram foi suspendê-lo por trinta dias. O delegado Ramos, titular do distrito onde Mattos trabalhava, evitara, através de suas amizades na Chefatura, que ele fosse transferido para o distrito de Brás de Pina, como os corruptos do gabinete queriam, com o objectivo de puni-lo. Esse distrito, além de distante, tinha instalações precárias e apresentava o maior índice de ocorrências policiais, logo abaixo do 2.” Distrito, de Copacabana. Mas Ramos não queria proteger o comissário; o delegado usava o nome de Mattos para ameaçar os banqueiros. Certa ocasião Rosalvo, o investigador, surpreendera Ramos dizendo intimidativamente a um banqueiro do bicho: Eu mando o comissário Alberto Mattos fechar todos os seus pontos, ouviu?!
Rosalvo quando o banqueiro se retirou dissera para o delegado: O doutor Alberto Mattos mata o senhor se descobrir que está usando o nome dele. Ramos ficou pálido. Como é que ele pode saber? Os bicheiros não são malucos de contar. Só se for você. Rosalvo respondera: Eu? Doutor, macaco inteligente não mete a mão em cumbuca. Toda delegacia tinha um tira que recebia dinheiro dos bicheiros da jurisdição para distribuir com os colegas. Esse policial era conhecido como apanhador. O dinheiro dos bicheiros - o levado - variava de acordo com o movimento dos pontos e a ganância do delegado. Rosalvo, como um bom come-quieto, não entrava no rateio do levado pois recebia por fora directamente dos bicheiros; estes queriam ter as boas graças do assistente do comissário Mattos; a honestidade do comissário era considerada pelos contraventores como uma ameaçadora manifestação de orgulho e demência.
Pamella Durante
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